quinta-feira, 19 de novembro de 2015

FAGUNDES VARELA
Luís Nicolau Fagundes Varela
(Nossa Senhora da Piedade [Rio Claro] RJ 1841 - Niterói RJ 1875)


Mauro, o Escravo
(Fragmentos de um poema)
A Sentença(...)

XI
Oh! Mauro era belo! Da raça africana
Herdara a coragem sem par, sobre-humana,
Que aos sopros do gênio se torna um vulcão.
Apenas das faces de um leve crestado,
Um fino cabelo, contudo anelado,
Traíam do sangue longínqua fusão.

(...)

XIV
— Conheces teu crime? gritou o senhor.
— Não! Mauro responde com frio amargor,
O tigre encarando que em raiva o media.
— Pois que, desgraçado! fremente exclamou,
E erguendo-se rubro, Lotário avançou
Ao servo impassível que ao raio sorria.

(...)

XX
— Segurem-no!... branco, de cólera arfando,
Rugiu o tirano convulso apontando
O escravo rebelde que os ferros brandia.
— Segurem-no e aos golpes de rábido açoite,
Lacerem-lhe as carnes de dia e de noite,
Até que lhe chegue final agonia!

XXI
O bando de servos lançou-se, ao mandado.
— Ninguém se aproxime! bradou exaltado
O moço cativo sustendo a corrente.
A turba afastou-se medrosa e tremendo
E Mauro sublime, seu ódio contendo,
Falou destemido do déspota à frente:

XXII
Não creias que eu tema! não creias que escravo
Suplícios me curvem, ai! não, que sou bravo!
Por que me condenas? que culpa me oprime,
Senão ter vedado que um monstro cruento,
De fogos impuros, lascivos, sedento,
Lançasse a inocência nas lamas do crime?

XXIII
Oh! sim, sim, teu filho, no lúbrico afã,
Tentou à desonra levar minha irmã!
Ai! ela não tinha que um mísero irmão!...
Ergui-me em defesa; teus ferros esmagam,
Humilham, rebaixam, porém não apagam
Virtudes e crenças, dever e afeição!

XXIV
Fiz bem! Deus me julga!Tu sabes meu crime,
O fero delito que a fronte me oprime,
As faltas nefandas, os negros horrores;
Agora prossegue, prossegue, estou mudo,
Condena-me agora que sabes de tudo,
Abafa-me ao peso de estólidas dores!

XXV
E Mauro calou-se. Mais frio que a morte,
Mais trêmulo que os juncos ao sopro do norte,
À viva ironia Lotário abalou-se.
— Afastem-no!... Afastem-no! ergueu-se rugindo,
E a turba dos servos o escravo impelindo
Em poucos instantes da sala afastou-se.

XXVI
Ah! mísero Mauro! passados momentos,
Terrível sentença dos lábios sedentos
Baixou o tirano, que em fúrias ardia:
— Amarrem-no, e aos golpes de rábido açoite,
Lacerem-lhe as carnes de dia e de noite
Até que lhe chegue final agonia.

XXVII
Mas quando a alvorada no espaço raiava,
E os bosques, e os campos, risonha inundava
Das longas delícias do etéreo clarão,
O escravo rebelde debalde buscaram,
Cadeias rompidas somente encontraram,
E a porta arrombada da dura prisão.


O General Juarez

(...)
Juarez! Juarez! sempre teu nome
Da liberdade ao lado!
Sempre teus brados ao passar dos ventos!
Sempre a lembrança tua
A cada marulhar de humanas vagas!
Em que fonte sagrada
Bebeste esse valor e essa firmeza
Que os reveses não quebram?

(...)
Quão enganada marcha a tirania!
Quão cego o despotismo
Paira e volteia nessas virgens plagas!
Há no seio da América
Um mundo novo a descobrir-se ainda:
Senhores de além-mar,
Quereis saber onde esse mundo existe?
Quereis saber seu nome?
Sondai o peito à raça americana,
E nesse mar sem fundo,
Inda aquecido pelo mar primeiro,
Vereis a liberdade!

Tu a encaraste, Juarez, de perto!
No mais fundo das matas
Onde a mãe natureza te mostrava
Um código mais puro
Do que os preceitos da infernal ciência
Cujas letras malditas
Queimam do pergaminho a lisa face,
Aprendeste o segredo
Que desde a hora prima do universo
As torrentes murmuram!
E contemplando o ermo, o céu, as águas,
Choraste por ser homem!

Mas dos vulcões sorvendo o fumo espesso,
Transpondo os areais,
Buscando asilo nas florestas amplas,
Arrostando as tormentas
Entre um pugilo de guerreiros bravos,
Pejaste de legendas
Todo o deserto que teus pés tocaram!
E as solidões sorriam,
Os abutres saíam de seus antros,
As turbas dos selvagens
Vinham surpresas se postar nos montes
Para ver-te passar!

O espírito de um povo nunca morre.
Não, não foram os homens
Que sobre o globo prolongando a vista,
Regiões escolheram,
E formaram nações, usos e crenças;
Não, uma oculta lei
Disse: — Ao Árabe as terras arenosas,
Aos Germanos a neve;
Aqui o fogo, a luz, ali neblinas;
Nesta calmos pastores,
Ali fortes guerreiros; sonhos, crenças,
Lhes servem de defesa.

(...)


[A Cruz]
***
                   Estrelas
                   Singelas,
                   Luzeiros
                   Fagueiros,
Esplêndidos orbes, que o mundo aclarais!
Desertos e mares, - florestas vivazes!
Montanhas audazes que o céu topetais!
                    Abismos
     Profundos!
     Cavernas
     E t e r nas!
     Extensos,
     Imensos
     Espaços
     A z u i s!
Altares e tronos,
Humildes e sábios, soberbos e grandes!
Dobrai-vos ao vulto sublime da cruz!
Só ela nos mostra da glória o caminho,
Só ela nos fala das leis de - Jesus!






A VALSA


CASIMIRO DE ABREU


TU, ONTEM,
NA DANÇA
QUE CANSA,
VOAVAS
CO'AS FACES
EM ROSAS
FORMOSAS 
DE VIVO,
LASCIVO
CARMIM;
NA VALSA
TÃO FALSA,
CORRIAS,
FUGIAS,
ARDENTE,
CONTENTE,
TRANQÜILA,
SERENA,
SEM PENA
DE MIM!
 
QUEM DERA
QUE SINTAS
AS DORES
DE AMORES
QUE LOUCO
SENTI!
QUEM DERA
QUE SINTAS!...
— NÃO NEGUES,
NÃO MINTAS...
— EU VI!...

VALSAVAS: 
— TEUS BELOS
CABELOS,
JÁ SOLTOS,
REVOLTOS, 
SALTAVAM,
VOAVAM,
BRINCAVAM
NO COLO
QUE É MEU;
E OS OLHOS
ESCUROS
TÃO PUROS,
OS OLHOS
PERJUROS
VOLVIAS,
TREMIAS,
SORRIAS,
P'RA OUTRO
NÃO EU!

QUEM DERA
QUE SINTAS
AS DORES
DE AMORES
QUE LOUCO
SENTI!
QUEM DERA
QUE SINTAS!...
— NÃO NEGUES,
NÃO MINTAS...
— EU VI!...

MEU DEUS!
ERAS BELA
DONZELA,
VALSANDO,
SORRINDO,
FUGINDO,
QUAL SILFO
RISONHO
QUE EM SONHO
NOS VEM!
MAS ESSE
SORRISO
TÃO LISO
QUE TINHAS
NOS LÁBIOS
DE ROSA,
FORMOSA,
TU DAVAS,
MANDAVAS
A QUEM ?!

QUEM DERA
QUE SINTAS
AS DORES
DE ARNORES
QUE LOUCO
SENTI!
QUEM DERA
QUE SINTAS!...
— NÃO NEGUES,
NÃO MINTAS,..
— EU VI!...

 
CALADO,
SOZINHO,
MESQUINHO,
EM ZELOS
ARDENDO,
EU VI-TE
CORRENDO
TÃO FALSA
NA VALSA
VELOZ!
EU TRISTE
VI TUDO!

MAS MUDO
NÃO TIVE
NAS GALAS
DAS SALAS,
NEM FALAS,
NEM CANTOS,
NEM PRANTOS,
NEM VOZ!

QUEM DERA
QUE SINTAS
AS DORES
DE AMORES
QUE LOUCO
SENTI!

QUEM DERA
QUE SINTAS!...
— NÃO NEGUES
NÃO MINTAS...
— EU VI!

NA VALSA
CANSASTE; 
FICASTE
PROSTRADA,
TURBADA!
PENSAVAS,
CISMAVAS,
E ESTAVAS
TÃO PÁLIDA
ENTÃO;
QUAL PÁLIDA
ROSA
MIMOSA
NO VALE
DO VENTO
CRUENTO
BATIDA,
CAÍDA
SEM VIDA.
NO CHÃO!

QUEM DERA
QUE SINTAS
AS DORES
DE AMORES
QUE LOUCO
SENTI!
QUEM DERA
QUE SINTAS!...
— NÃO NEGUES,
NÃO MINTAS...