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quarta-feira, 21 de outubro de 2015
Há duas espécies de artista. Uma composta dos que vêem as coisas veem consequência fazem arte pura, guardados os esternos ritmos da vida, e adotados, para a concretização das emoções estéticas, os processos clássicos dos grandes mestres. (...). A outra espécie é formada dos que veem anormalmente a natureza e a interpretam à luz das teorias efêmeras, sob a sugestão estrábica das escolas rebeldes, surgidas cá e lá como furúnculos da cultura excessiva. (...) Estas considerações são povoadas pela exposição da Sra. Malfatti, onde se notam acentuadíssimas tendências para uma atitude estética forçada no sentido das extravagâncias de Picasso e cia. [O Diário de São Paulo, dez/1917]
http://tigletras.blogspot.com.br/2012/06/polemica-anita-malfatti-e-monteiro.html
[...] Comigo, milhares de Paulistas, aprioristicamente, assim julgaram essa mulher singular que, quando não tivesse outro mérito, teria o de haver rompido, com audácia de arte independente e nova, a nossa sonolência de retardatários e paralíticos da pintura (BATISTA, 1985:87). [...] Quando defrontei as telas de Anita, comecei a matutar se a acidez de Lobato era justa, e acabei achando-o cruel e exagerado. (BATISTA, 1985:87)
Apelando para uma argumentação desrespeitosa para com a artista – na época uma mulher que buscava a profissionalização e com experiência no exterior (o que não seria pouca coisa para uma mulher brasileira, com defeito congênito, na segunda década do século passado) – transformaram essa profissional numa mulher apenas insegura, capaz de colocar entraves à sua própria produção a partir de uma crítica de jornal. (CHIARELLI, 2008:172).
segunda-feira, 11 de junho de 2012
Bocatorta
Bocatorta excedeu a toda pintura. A hediondez personificara-se nele, avultando, sobretudo, na monstruosa deformação da boca. Não tinha beiços, e as gengivas largas, violáceas, com raros tocos de dentes bestiais fincados as tontas, mostravam-se cruas, como enorme chaga viva. E torta, posta de viés na cara, num esgar diabólico, resumindo o que o feio pode compor de horripilante. Embora se lhe estampasse na boca o quanto fosse preciso para fazer aquela criatura a culminância da ascosidade, a natureza malvada fora além, dando-lhe pernas cambaias e uns pés deformados que nem remotamente lembrariam a forma de um pé humano. E os olhos vivíssimos, que pulavam das órbitas empapuçadas, veiados de sangue na esclerótica amarela. E pele grumosa, escamada de escaras cinzentas. Tudo nele quebrava o equilíbrio normal do corpo humano, como se a teratologia caprichasse em criar a sua obra-prima.
http://contosdocovil.wordpress.com/2008/05/15/contos-de-monteiro-lobato/.
http://sobreomedo.wordpress.com/tag/monteiro-lobato/.
http://www.ruc.unimontes.br/index.php/unicientifica/article/viewArticle/178 bocatorta monteiro lobato.
http://www.youtube.com/watch?v=2sj_SQyWSp8
Cabelos Compridos
– Coitada da Das Dores, tão boazinha... Das Dores é isso, só isso – boazinha. Não possui outra qualidade. É feia, é desengraçada, é inelegante, é magérrima, não tem seios, nem cadeiras, nem nenhuma rotindidade posterior; é pobre de bens e de espírito; e é filha daquela Joaquim da Venda, ilhéu de burrice ebúrnea – isto é, dura como o marfim. Moça que não tem por onde se lhe pegue fica sendo apenas isso – boazinha. - Coita da Das Dores, tão bozinha... Só tem uma coisa a mais que as outras – cabelo. A fita de sua trança toca-lhe a bainha da saia. Em compensação, suas idéias medem-se por frações de milímetros, tão curtinhas são. Cabelos compridos, idéias curtas – já dizia o Schopenhauer. A natureza pôs-lhe na cabeça um tablóide homeopático de inteligência, um grânulo de memória, uma pitada de raciocínio – e plantou a cabeleira por cima. Essa mesquinhez por dentro. Por fora ornou-lhe a asa do nariz com um grão de ervilha, que ela modestamente denomina verruga, arrebitou-lhe as ventas, rasgou-lhe boca de dimensões comprometedoras e deu-lhe uns pés... Nossa senhora, que pés! E tantas outras pirraças lhe fez que ao vê-la todos dizem comiserados: - Coitada da Das Dores, tão bozinha...
Monteiro Lobato
http://jacifoiodiscovoador.blogspot.com.br/2011/06/cabelos-compridos-de-monteiro-lobato.html
http://www.youtube.com/watch?v=6m872S6_1MY
http://www.youtube.com/watch?v=MmRTVhEYZ7E&feature=related
Bocatorta excedeu a toda pintura. A hediondez personificara-se nele, avultando, sobretudo, na monstruosa deformação da boca. Não tinha beiços, e as gengivas largas, violáceas, com raros tocos de dentes bestiais fincados as tontas, mostravam-se cruas, como enorme chaga viva. E torta, posta de viés na cara, num esgar diabólico, resumindo o que o feio pode compor de horripilante. Embora se lhe estampasse na boca o quanto fosse preciso para fazer aquela criatura a culminância da ascosidade, a natureza malvada fora além, dando-lhe pernas cambaias e uns pés deformados que nem remotamente lembrariam a forma de um pé humano. E os olhos vivíssimos, que pulavam das órbitas empapuçadas, veiados de sangue na esclerótica amarela. E pele grumosa, escamada de escaras cinzentas. Tudo nele quebrava o equilíbrio normal do corpo humano, como se a teratologia caprichasse em criar a sua obra-prima.
http://contosdocovil.wordpress.com/2008/05/15/contos-de-monteiro-lobato/.
http://sobreomedo.wordpress.com/tag/monteiro-lobato/.
http://www.ruc.unimontes.br/index.php/unicientifica/article/viewArticle/178 bocatorta monteiro lobato.
http://www.youtube.com/watch?v=2sj_SQyWSp8
Cabelos Compridos
– Coitada da Das Dores, tão boazinha... Das Dores é isso, só isso – boazinha. Não possui outra qualidade. É feia, é desengraçada, é inelegante, é magérrima, não tem seios, nem cadeiras, nem nenhuma rotindidade posterior; é pobre de bens e de espírito; e é filha daquela Joaquim da Venda, ilhéu de burrice ebúrnea – isto é, dura como o marfim. Moça que não tem por onde se lhe pegue fica sendo apenas isso – boazinha. - Coita da Das Dores, tão bozinha... Só tem uma coisa a mais que as outras – cabelo. A fita de sua trança toca-lhe a bainha da saia. Em compensação, suas idéias medem-se por frações de milímetros, tão curtinhas são. Cabelos compridos, idéias curtas – já dizia o Schopenhauer. A natureza pôs-lhe na cabeça um tablóide homeopático de inteligência, um grânulo de memória, uma pitada de raciocínio – e plantou a cabeleira por cima. Essa mesquinhez por dentro. Por fora ornou-lhe a asa do nariz com um grão de ervilha, que ela modestamente denomina verruga, arrebitou-lhe as ventas, rasgou-lhe boca de dimensões comprometedoras e deu-lhe uns pés... Nossa senhora, que pés! E tantas outras pirraças lhe fez que ao vê-la todos dizem comiserados: - Coitada da Das Dores, tão bozinha...
Monteiro Lobato
http://jacifoiodiscovoador.blogspot.com.br/2011/06/cabelos-compridos-de-monteiro-lobato.html
http://www.youtube.com/watch?v=6m872S6_1MY
http://www.youtube.com/watch?v=MmRTVhEYZ7E&feature=related
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