quinta-feira, 4 de abril de 2013
terça-feira, 26 de fevereiro de 2013
Torre azul
É preciso construir uma torre
- uma torre azul para os suicidas.
Têm qualquer coisa de anjo esses suicidas voadores,
qualquer coisa de anjo que perdeu as asas.
É preciso construir-lhes um túnel
- um túnel sem fim e sem saída
e onde um trem viajasse eternamente
como uma nave em alto mar perdida.
É preciso construir uma torre...
É preciso construir um túnel...
É preciso morrer de puro, puro amor!
http://marioquintana.blogspot.com.br/
http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=2_eMA8NxAFc
É preciso construir uma torre
- uma torre azul para os suicidas.
Têm qualquer coisa de anjo esses suicidas voadores,
qualquer coisa de anjo que perdeu as asas.
É preciso construir-lhes um túnel
- um túnel sem fim e sem saída
e onde um trem viajasse eternamente
como uma nave em alto mar perdida.
É preciso construir uma torre...
É preciso construir um túnel...
É preciso morrer de puro, puro amor!
http://marioquintana.blogspot.com.br/
segunda-feira, 11 de junho de 2012
Bocatorta
Bocatorta excedeu a toda pintura. A hediondez personificara-se nele, avultando, sobretudo, na monstruosa deformação da boca. Não tinha beiços, e as gengivas largas, violáceas, com raros tocos de dentes bestiais fincados as tontas, mostravam-se cruas, como enorme chaga viva. E torta, posta de viés na cara, num esgar diabólico, resumindo o que o feio pode compor de horripilante. Embora se lhe estampasse na boca o quanto fosse preciso para fazer aquela criatura a culminância da ascosidade, a natureza malvada fora além, dando-lhe pernas cambaias e uns pés deformados que nem remotamente lembrariam a forma de um pé humano. E os olhos vivíssimos, que pulavam das órbitas empapuçadas, veiados de sangue na esclerótica amarela. E pele grumosa, escamada de escaras cinzentas. Tudo nele quebrava o equilíbrio normal do corpo humano, como se a teratologia caprichasse em criar a sua obra-prima.
http://contosdocovil.wordpress.com/2008/05/15/contos-de-monteiro-lobato/.
http://sobreomedo.wordpress.com/tag/monteiro-lobato/.
http://www.ruc.unimontes.br/index.php/unicientifica/article/viewArticle/178 bocatorta monteiro lobato.
http://www.youtube.com/watch?v=2sj_SQyWSp8
Cabelos Compridos
– Coitada da Das Dores, tão boazinha... Das Dores é isso, só isso – boazinha. Não possui outra qualidade. É feia, é desengraçada, é inelegante, é magérrima, não tem seios, nem cadeiras, nem nenhuma rotindidade posterior; é pobre de bens e de espírito; e é filha daquela Joaquim da Venda, ilhéu de burrice ebúrnea – isto é, dura como o marfim. Moça que não tem por onde se lhe pegue fica sendo apenas isso – boazinha. - Coita da Das Dores, tão bozinha... Só tem uma coisa a mais que as outras – cabelo. A fita de sua trança toca-lhe a bainha da saia. Em compensação, suas idéias medem-se por frações de milímetros, tão curtinhas são. Cabelos compridos, idéias curtas – já dizia o Schopenhauer. A natureza pôs-lhe na cabeça um tablóide homeopático de inteligência, um grânulo de memória, uma pitada de raciocínio – e plantou a cabeleira por cima. Essa mesquinhez por dentro. Por fora ornou-lhe a asa do nariz com um grão de ervilha, que ela modestamente denomina verruga, arrebitou-lhe as ventas, rasgou-lhe boca de dimensões comprometedoras e deu-lhe uns pés... Nossa senhora, que pés! E tantas outras pirraças lhe fez que ao vê-la todos dizem comiserados: - Coitada da Das Dores, tão bozinha...
Monteiro Lobato
http://jacifoiodiscovoador.blogspot.com.br/2011/06/cabelos-compridos-de-monteiro-lobato.html
http://www.youtube.com/watch?v=6m872S6_1MY
http://www.youtube.com/watch?v=MmRTVhEYZ7E&feature=related
Bocatorta excedeu a toda pintura. A hediondez personificara-se nele, avultando, sobretudo, na monstruosa deformação da boca. Não tinha beiços, e as gengivas largas, violáceas, com raros tocos de dentes bestiais fincados as tontas, mostravam-se cruas, como enorme chaga viva. E torta, posta de viés na cara, num esgar diabólico, resumindo o que o feio pode compor de horripilante. Embora se lhe estampasse na boca o quanto fosse preciso para fazer aquela criatura a culminância da ascosidade, a natureza malvada fora além, dando-lhe pernas cambaias e uns pés deformados que nem remotamente lembrariam a forma de um pé humano. E os olhos vivíssimos, que pulavam das órbitas empapuçadas, veiados de sangue na esclerótica amarela. E pele grumosa, escamada de escaras cinzentas. Tudo nele quebrava o equilíbrio normal do corpo humano, como se a teratologia caprichasse em criar a sua obra-prima.
http://contosdocovil.wordpress.com/2008/05/15/contos-de-monteiro-lobato/.
http://sobreomedo.wordpress.com/tag/monteiro-lobato/.
http://www.ruc.unimontes.br/index.php/unicientifica/article/viewArticle/178 bocatorta monteiro lobato.
http://www.youtube.com/watch?v=2sj_SQyWSp8
Cabelos Compridos
– Coitada da Das Dores, tão boazinha... Das Dores é isso, só isso – boazinha. Não possui outra qualidade. É feia, é desengraçada, é inelegante, é magérrima, não tem seios, nem cadeiras, nem nenhuma rotindidade posterior; é pobre de bens e de espírito; e é filha daquela Joaquim da Venda, ilhéu de burrice ebúrnea – isto é, dura como o marfim. Moça que não tem por onde se lhe pegue fica sendo apenas isso – boazinha. - Coita da Das Dores, tão bozinha... Só tem uma coisa a mais que as outras – cabelo. A fita de sua trança toca-lhe a bainha da saia. Em compensação, suas idéias medem-se por frações de milímetros, tão curtinhas são. Cabelos compridos, idéias curtas – já dizia o Schopenhauer. A natureza pôs-lhe na cabeça um tablóide homeopático de inteligência, um grânulo de memória, uma pitada de raciocínio – e plantou a cabeleira por cima. Essa mesquinhez por dentro. Por fora ornou-lhe a asa do nariz com um grão de ervilha, que ela modestamente denomina verruga, arrebitou-lhe as ventas, rasgou-lhe boca de dimensões comprometedoras e deu-lhe uns pés... Nossa senhora, que pés! E tantas outras pirraças lhe fez que ao vê-la todos dizem comiserados: - Coitada da Das Dores, tão bozinha...
Monteiro Lobato
http://jacifoiodiscovoador.blogspot.com.br/2011/06/cabelos-compridos-de-monteiro-lobato.html
http://www.youtube.com/watch?v=6m872S6_1MY
http://www.youtube.com/watch?v=MmRTVhEYZ7E&feature=related
terça-feira, 19 de julho de 2011
sexta-feira, 18 de março de 2011
Carlos Drummond de Andrade
VERBO SER
Que vai ser quando crescer?
Vivem perguntando em redor. Que é ser?
É ter um corpo, um jeito, um nome?
Tenho os três. E sou?
Tenho de mudar quando crescer? Usar outro nome, corpo e jeito?
Ou a gente só principia a ser quando cresce?
É terrível, ser? Dói? É bom? É triste?
Ser; pronunciado tão depressa, e cabe tantas coisas?
Repito: Ser, Ser, Ser. Er. R.
Que vou ser quando crescer?
Sou obrigado a? Posso escolher?
Não dá para entender. Não vou ser.
Vou crescer assim mesmo.
Sem ser Esquecer.
Carlos Drummond de Andrade
Que vai ser quando crescer?
Vivem perguntando em redor. Que é ser?
É ter um corpo, um jeito, um nome?
Tenho os três. E sou?
Tenho de mudar quando crescer? Usar outro nome, corpo e jeito?
Ou a gente só principia a ser quando cresce?
É terrível, ser? Dói? É bom? É triste?
Ser; pronunciado tão depressa, e cabe tantas coisas?
Repito: Ser, Ser, Ser. Er. R.
Que vou ser quando crescer?
Sou obrigado a? Posso escolher?
Não dá para entender. Não vou ser.
Vou crescer assim mesmo.
Sem ser Esquecer.
Carlos Drummond de Andrade
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