terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Torre azul 

 É preciso construir uma torre
- uma torre azul para os suicidas.
Têm qualquer coisa de anjo esses suicidas voadores,
 qualquer coisa de anjo que perdeu as asas.
 É preciso construir-lhes um túnel
 - um túnel sem fim e sem saída
 e onde um trem viajasse eternamente
 como uma nave em alto mar perdida.
 É preciso construir uma torre...
 É preciso construir um túnel...
 É preciso morrer de puro, puro amor!

  http://marioquintana.blogspot.com.br/

http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=2_eMA8NxAFc

segunda-feira, 11 de junho de 2012

                                                                   Bocatorta

        Bocatorta excedeu a toda pintura. A hediondez personificara-se nele, avultando, sobretudo, na monstruosa deformação da boca. Não tinha beiços, e as gengivas largas, violáceas, com raros tocos de dentes bestiais fincados as tontas, mostravam-se cruas, como enorme chaga viva. E torta, posta de viés na cara, num esgar diabólico, resumindo o que o feio pode compor de horripilante. Embora se lhe estampasse na boca o quanto fosse preciso para fazer aquela criatura a culminância da ascosidade, a natureza malvada fora além, dando-lhe pernas cambaias e uns pés deformados que nem remotamente lembrariam a forma de um pé humano. E os olhos vivíssimos, que pulavam das órbitas empapuçadas, veiados de sangue na esclerótica amarela. E pele grumosa, escamada de escaras cinzentas. Tudo nele quebrava o equilíbrio normal do corpo humano, como se a teratologia caprichasse em criar a sua obra-prima.
http://contosdocovil.wordpress.com/2008/05/15/contos-de-monteiro-lobato/.
http://sobreomedo.wordpress.com/tag/monteiro-lobato/.
http://www.ruc.unimontes.br/index.php/unicientifica/article/viewArticle/178 bocatorta monteiro lobato.
http://www.youtube.com/watch?v=2sj_SQyWSp8 

                                                          Cabelos Compridos
         – Coitada da Das Dores, tão boazinha... Das Dores é isso, só isso – boazinha. Não possui outra qualidade. É feia, é desengraçada, é inelegante, é magérrima, não tem seios, nem cadeiras, nem nenhuma rotindidade posterior; é pobre de bens e de espírito; e é filha daquela Joaquim da Venda, ilhéu de burrice ebúrnea – isto é, dura como o marfim. Moça que não tem por onde se lhe pegue fica sendo apenas isso – boazinha. - Coita da Das Dores, tão bozinha... Só tem uma coisa a mais que as outras – cabelo. A fita de sua trança toca-lhe a bainha da saia. Em compensação, suas idéias medem-se por frações de milímetros, tão curtinhas são. Cabelos compridos, idéias curtas – já dizia o Schopenhauer. A natureza pôs-lhe na cabeça um tablóide homeopático de inteligência, um grânulo de memória, uma pitada de raciocínio – e plantou a cabeleira por cima. Essa mesquinhez por dentro. Por fora ornou-lhe a asa do nariz com um grão de ervilha, que ela modestamente denomina verruga, arrebitou-lhe as ventas, rasgou-lhe boca de dimensões comprometedoras e deu-lhe uns pés... Nossa senhora, que pés! E tantas outras pirraças lhe fez que ao vê-la todos dizem comiserados: - Coitada da Das Dores, tão bozinha...
                                                                                                  Monteiro Lobato
  http://jacifoiodiscovoador.blogspot.com.br/2011/06/cabelos-compridos-de-monteiro-lobato.html
 http://www.youtube.com/watch?v=6m872S6_1MY
 http://www.youtube.com/watch?v=MmRTVhEYZ7E&feature=related



terça-feira, 19 de julho de 2011

sexta-feira, 18 de março de 2011

Carlos Drummond de Andrade

VERBO SER

Que vai ser quando crescer?
Vivem perguntando em redor. Que é ser?
É ter um corpo, um jeito, um nome?
Tenho os três. E sou?
Tenho de mudar quando crescer? Usar outro nome, corpo e jeito?
Ou a gente só principia a ser quando cresce?
É terrível, ser? Dói? É bom? É triste?
Ser; pronunciado tão depressa, e cabe tantas coisas?
Repito: Ser, Ser, Ser. Er. R.
Que vou ser quando crescer?
Sou obrigado a? Posso escolher?
Não dá para entender. Não vou ser.
Vou crescer assim mesmo.
Sem ser Esquecer.

Carlos Drummond de Andrade